O desmame é considerado uma das etapas mais críticas e desafiadoras na suinocultura, pois os leitões enfrentam abruptamente diversos fatores de estresse que exigem uma rápida adaptação para preservar o bem-estar e a eficiência alimentar futura. É uma fase que coincide com o declínio natural da imunidade passiva recebida da porca através do leite e com o período em que o sistema imunológico ainda está imaturo deixando o leitão em uma “janela de vulnerabilidade imunológica” crítica.
A integridade da mucosa intestinal pode ser afetada por esses estressores, resultando em diarreias comuns no pós-desmame e em impactos negativos na eficiência produtiva subsequente (SANTOS et al., 2021).
O sucesso do desempenho produtivo está intrinsecamente ligado ao binômio água-ração. De acordo com Silva et al. (2020), a ingestão de nutrientes via ração é diretamente proporcional ao consumo hídrico, uma vez que animais que bebem mais água tendem a apresentar maior apetite e ingestão de ração.
Portanto, o estímulo ao consumo de água logo após a entrada na creche é uma medida prioritária para evitar a desidratação e garantir que o trato gastrointestinal receba o suporte necessário para processar a nova dieta sólida.
A demanda hídrica proporcional ao peso vivo é mais elevada em leitões jovens do que em animais em fases posteriores (Rosa et al., 2021), tornando o estímulo ao consumo de água um ponto crítico no pós-desmame imediato. Entraves de manejo, como o estresse térmico por frio ou a superlotação das baias, podem retardar a adaptação dos animais, fazendo com que muitos levem até 48 horas para localizar e utilizar os novos bebedouros (PINHEIRO, 2014). Essa demora compromete a hidratação e, consequentemente, o início da ingestão de ração, essencial para a saúde intestinal.
O desmame impõe ao leitão um período crítico de balanço energético negativo, no qual a ingestão de água e energia metabolizável pode levar até duas semanas para retornar aos níveis ideais de manutenção e crescimento (LE DIVIDICH; SÈVE, 2000). Esse déficit inicial não compromete apenas o peso, mas altera profundamente a fisiologia digestiva do animal.
Como consequência direta da baixa ingestão voluntária de ração, ocorre uma redução na capacidade de digestão e absorção do trato gastrointestinal. Esse cenário favorece a passagem de nutrientes não digeridos para o intestino grosso, criando um ambiente propício para a proliferação de microbiota patogênica e a manifestação de graves distúrbios entéricos.
A barreira intestinal representa a primeira linha de defesa do organismo contra a invasão de bactérias patogênicas e a absorção de moléculas tóxicas. Para que essa estrutura permaneça funcional, a ingestão contínua de nutrientes no período pós-desmame é um dos fatores mais importantes .
No dia do desmame, o comportamento exploratório do leitão prioriza as visitas ao bebedouro (DYBKJAER et al., 2006). Como ele está acostumado com uma dieta líquida (leite), a água é o recurso que ele reconhece mais rapidamente como fonte de conforto ou saciedade inicial. Essa preferência natural pode ser explorada para acelerar a adaptação nutricional da nova dieta.
Essa estratégia não apenas potencializa a hidratação imediata, como também atua como um facilitador para a ingestão de ração sólida, resultando em um melhor desempenho zootécnico já na primeira semana pós-desmame (DA SILVA et al., 2020).
Dentre as estratégias nutricionais e de manejo comumente empregadas para mitigar perdas e otimizar o desempenho de leitões no pós-desmame, destacam-se o uso de extratos vegetais (Bontempo et al., 2014), ácidos orgânicos (Suiryanrayna; Ramana, 2015), plasma sanguíneo (Pérez-Bosque et al., 2016) e probióticos (Liao; Nyachoti, 2017). Adicionalmente, o emprego de óleos essenciais (Mass et al., 2020), aditivos flavorizantes na água (Da Silva et al., 2020) e óxido de zinco (Bonetti et al., 2021), somados ao aumento da idade ao desmame (Faccin et al., 2020), constituem ferramentas fundamentais nesse período.
A utilização de suplementos líquidos via água de bebida, compostos por fontes proteicas, eletrólitos e energia, atua positivamente no consumo diário de ração e no ganho de peso dos leitões. Além de favorecer o desempenho produtivo, essa estratégia melhora o estado de saúde geral do lote e, consequentemente, reduz a taxa de remoção de animais das baias por morbidades (MORRIS et al., 2017).
O consumo hídrico animal é influenciado por diversas variáveis, incluindo idade, peso, estágio fisiológico e condições ambientais, além de fatores técnicos como a vazão dos bebedouros (NAGAE et al., 2022). Contudo, a diretriz de estimar o consumo em torno de 10% do peso vivo permanece como uma métrica prática e aceitável para o manejo diário em granjas.
Da Redação com Agroceres




